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Estagflação: entenda o novo risco para a economia global e como o Brasil será afetado

 

 

Depois de dois anos de Covid-19, nada poderia ser mais assustador para o planeta que o cenário de estagflação – crescimento baixo com preços em elevação na maioria das economias. Chame de carma, ou de lei do eterno retorno, mas é fato que as duas primeiras décadas do século 21 se assemelham ao mesmo período do século 20. A entrada eufórica de um novo século, novas tecnologias e expansão econômica marcaram a humanidade. Até que uma guerra e uma pandemia atravessaram o caminho. Ainda que a ordem entre guerra e pandemia tenha se alternado em cada século, a associação das narrativas é inevitável. E o que esperar depois dela também. Uma dura travessia. A previsão dessa lei do eterno retorno partiu, dias atrás, do Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

Pelos cálculos do órgão, toda a economia global será afetada pelo conflito que se coloca no Leste Europeu. A estimativa é que o impacto derrube entre 5% e 15% da previsão inicial de crescimento do PIB feita pelo órgão. Dependerá da duração do conflito. Para completar o cenário de estagflação, os preços também precisam subir, e na região esse movimento acontece antes mesmo do conflito europeu. Em 2021 os valores das commodities alimentícias saltaram 23,1%, em média, o ritmo mais rápido em mais de uma década, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, ajustados pela inflação. A leitura de fevereiro foi a mais alta desde 1961. E tudo isso se agrava porque sanções contra a Rússia travam os embarques e a produção de dois dos maiores produtores agrícolas do mundo.

 

Juntos, Rússia e Estados Unidos somam 30% das exportações mundiais de trigo e 18% do milho. “Seguramente haverá impacto e reflexos pelo mundo”, disse a diretora-presidente do FMI, Kristalina Georgieva.

 

Além do alimento, outro combustível para a escalada dos preços é o segmento energético. Grande parte da energia que alimenta a indústria europeia sai da Rússia. As economias mais industrializadas do continente, como Alemanha, França e Itália, dependem do gás natural russo transportado por gasodutos que cruzam a Ucrânia e a Polônia. Para Kateryna Filippenko, principal analista de pesquisas energéticas da consultoria Wood Mackenzie, sediada em Edimburgo, na Escócia, trata-se do maior dilema desde a Segunda Guerra Mundial. Por um lado, se fizerem vistas grossas à ofensiva de Putin podem alimentar novas invasões. Por outro, se esticarem demais a corda podem parar fábricas, ficar no escuro e passar frio. “Diante dessas opções, a situação pode piorar demais nas próximas semanas”, disse ela. “Se as exportações russas para a Europa forem interrompidas, a alta da inflação e a retração das economias serão fatos concretos.”

 

ÁSIA EM ALERTA No mundo atual, hiperglobalizado, os estragos são de certa forma incalculáveis e em cascata. Um claro termômetro deste arrefecimento é a China. A nação mais industrializada do mundo e a segunda maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, e o maior parceiro comercial do Brasil. O país de Xi Jinping projeta crescimento de apenas 5,5% em 2022 (sim, para os padrões chineses 5,5% significam apenas), a menor taxa em 32 anos – excetuando-se 2020, começo de pandemia, quando cresceu 2,3%. A missão da China, nesse contexto de escalada da hostilidade entre Ocidente e Oriente, é a tentativa de reduzir danos, segundo Mark Williams, economista-chefe para a Ásia da consultoria britânica Capital Economics. “A prioridade agora é conter o endividamento desordenado em um ambiente de inflação global e crescimento com o pé no freio.”

 

Há um ditado nos corredores dos encontros do G20 que se a “China crescer menos de 8%, o mundo não cresce nem 4%”, para exemplificar a força motriz chinesa na economia mundial. Durante a pandemia, a China conseguiu resultados positivos do PIB. Em 2020, quando o mundo amargava um tombo na casa dos 5%, o país cresceu acima de 2%. Em 2021, enquanto os países desenvolvidos brigavam por um crescimento na casa dos 4%, os chineses bateram 8%. Na recuperação mais eficiente de todo o globo. Mas alguns efeitos desses turbulentos anos parecem ter se mantido. A questão do endividamento de empresas do ramo da construção, um novo lockdown envolvendo mais de 30 milhões de pessoas e as dificuldades do comércio global abalaram o gigante chinês. Este mês o Banco Central do país já cortou juros. Há promessas de redução de impostos nos próximos meses e canteiros de obras financiados pelo Estado começam a surgir com apoio dos governos locais.

 

Ao estabelecer uma meta relativamente baixa de crescimento, a China amplificou as incertezas da recuperação global. No relatório anual do premier Li Keqiang, lido no parlamento, ficou claro o foco para este ano. “Precisamos tornar a estabilidade econômica a nossa principal prioridade”, disse. De acordo com o premiê, a recuperação econômica parece não conseguir engrenar e os preços das commodities permanecem altos e são sujeitos a flutuações. “Tudo isso está tornando o ambiente externo cada vez mais volátil, grave e incerto.”

 

ABAIXO DO EQUADOR O que é ruim para a China é, por reflexo, péssimo para o Brasil. Uma trágica tempestade perfeita, diz o economista Antonio Delfim Netto. “Crescimento em torno de zero e inflação acima de dois dígitos é como um coquetel de veneno para um paciente em estágio terminal”, disse o ex-ministro da Fazenda, um dos maiores especialistas – em muitos casos um dos responsáveis – em inflação e estagnação no País. A falta de estratégia de longo prazo dos anos 70, mesmo com seu ‘milagre econômico’, levou à hiperinflação dos anos 80 e 90, quando experimentamos variação de preços de até 80% ao mês (março de 1990).

 

As saídas econômicas da época eram cortar zeros da moeda da vez. Na prática, foram décadas perdidas, em que a única coisa que cresceu por aqui foi a desigualdade. Esse é o primeiro filho de inflação elevada e crescimento em queda. O economista Davi Lelis, especialista da corretora Valor Investimentos, afirma que o primeiro passo já foi dado nessa direção. “O antigo fantasma brasileiro de estagflação está de volta.”

 

A economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, concorda. Para ela, embora os Estados Unidos estejam se recuperando, o Brasil terá um ano com crescimento perto de zero e inflação alta. “No caso brasileiro, isso ocorre com o agravamento da falta de matérias-primas e com o prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia”, afirmou Fernanda. Na avaliação de Guilherme Meireles, coordenador de Relações Internacionais da ESAMC, da ESPM, a estagflação será mais devastadora entre os emergentes. “Essa crise tem um efeito cascata em outros países economicamente emergentes”, afirmou. Segundo ele, esse efeito cascata tem acontecido de modo frequente na história recente da economia.

 

“Por isso os investidores temem que a guerra contamine também os emergentes fora do conflito e preferem levar seus investimentos para economias mais seguras, como a dos EUA. É o fly to safe, ou voo para a segurança.” Além desse cenário temerário no além-mar, Meireles afirma que as condições internas do Brasil também não ajudam a reverter essa tendência. A diretora-presidente do FMI reforça o que afirmam os especialistas brasileiros. Para Kristalina Georgieva, estamos perto de “experimentar um aperto das condições financeiras e isso poderá desencadear a saída de capital de mercados emergentes.”

 

Numa situação como a atual, o fluxo de capitais se protege em mercados estáveis e maduros. E quando o fluxo do dinheiro é transformado, uma nova ordem política ocupa os espaços. Na avaliação de Alfred Kammer, diretor europeu do FMI, a guerra de Vladimir Putin na Ucrânia pode remodelar “fundamentalmente a ordem econômica global no longo prazo”, e trazer novos protagonistas para este cenário. Isso porque, segundo ele, uma guerra não acaba com a explosão da última bomba ­­— algo que a comunidade europeia sabe bem. Os milhares de refugiados (mais de 3,2 milhões de pessoas até agora), as famílias em luto e a necessidade de amparo congelam economias que não são palco da guerra, mas que passam a conviver com seus reflexos. “As remessas e o comércio global como um todo sentirão essa nova dinâmica”, disse. Num mundo com esse nível de complexidade é de assustar a situação brasileira sob a batuta dos até aqui incapazes Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Sem decisões técnicas qualificadas e firmes, essa dupla será capaz de jogar o País nos anos 80 – e estragar as próximas duas décadas.

 

Fonte: Istoé